No mês de março passado, precisamente, dia 21, há exatamente 40 anos, encerrava-se a 8ª Conferência Nacional de Saúde: No Brasil e no mundo muitos acontecimentos marcaram a década de 1980 que mexeram com a sociedade. A nível mundial: A Queda do Muro de Berlim, o Acidente de Chernobyl e a epidemia de Aids. No Brasil, sem medo de errar, apontamos como evento político mais importante a 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em Brasília-DF de 17 a 21 de março de 1986. Tendo como temas principais: Saúde como direito; Reformulação do Sistema Nacional de Saúde e Financiamento Setorial, foi Marco inicial do SUS.
Sistema de Saúde Falido. O sistema de saúde pública do Brasil que sempre foi questionado, com a chegada dos militares ao poder em 1964, foi ao caos. Imagine em 1970, nos grandes centros, RJ por exemplo: havia um médico para 610 habitante; no Piauí a relação era de um médico para 7 mil pacientes e, hospitais com duas portas de entrada: Uma para quem pagava o INAMPS e outra pelos fundos para quem não pagava ou seja os indigentes (pessoas que não tinham vínculos formais de empregos ou não podiam pagar a previdência), que era a maioria. A população do Brasil na casa de 130 milhões de habitantes, 33% rurais, ou seja 37 milhões e 22 milhões nos grandes centros na mesma situação. Os militares criaram o INPS (1966), não deu certo; depois o INAMPS (1977), piorou. Os recursos da saúde eram todos canalizados pelo INAMPS que eram repassados para a iniciativa privada (hospitais conveniados). Na década de 1970, 97% dos recursos públicos seriam destinados à iniciativa privada e, não havia nenhum interesse em mudar, pois enchia os bolso de uma pequena parcela da sociedade (ricos).
Reforma Sanitária Brasileira. Algumas mudanças no sistema de saúde do Brasil na época precisavam ser feitas, mas o governo não apontava nenhuma solução. Uma turma nova de médicos como: Sérgio Arouca (1941/2003); Jairnilson Silva Paim (médico sanitarista e cientista), Nelson Rodrigues (Nelsão, médico sanitarista), Hésio Cordeiro (1942/2020-médico sanitarista e pesquisador); Anamaria Tambellini (pesquisadora da Fiocruz), entre outros, puxaram o debate. No início dos anos 80, com os militares já desgastados, mudanças aconteceram no cenário nacional como: Eleições Municipais e Estaduais em 1982. Uma safra de gestores com novos pensamentos assumiram; movimento Diretas Já. Enfim, cai o regime militar e mesmo de forma indireta assume um governo civil.
Construção da 8a. Conferência Nacional de Saúde. No de 1985, já no governo da Nova República com Hésio Cordeiro na presidência do INAMPS e Sérgio Arouca na presidência da Fiocruz e o sistema de saúde pública de mal a pior (não custa lembrar que: Hésio Cordeiro e Sérgio Arouca na virada da década de 1970/1980, com o avanço pela democracia, conquistaram a liderança do movimento sanitário. Certo dia no final da tarde em belíssimo papo no Nosso Restaurante em Bonsucesso com a pauta Saúde Pública, saiu uma proposta de realizar um encontro sobre a reconstrução da saúde. E a conversa evoluiu para uma conferência. Até então as conferências de saúde não tinham participação popular. Em seguida falaram com o Ministro da época Carlos Sant’anna (1931/2003 foi feita a proposta e, já lançaram a questão de a metade ser funcionários do Estado (nas três esferas de governo), e a outra metade, da sociedade civil organizada. A ideia fluiu e o próximo passo seria correr atrás dos conselhos já existentes, sindicatos da saúde e outras entidades nos Estados.
Recursos, Mobilização e Realização. Diz um ditado “quem é rei, não perde a majestade”. Foram encontrar recursos para realização da 8ª com Hésio Cordeiro, presidente do INAMPS que, logo fez um convênio com a Fiocruz e bancou praticamente tudo (Hésio Cordeiro falou que aquilo não era um favor e sim uma convicção política). A mobilização foi feita em todos estados, inclusive envolveram até a Rede Globo de Televisão: Arlindo Fábio (Fiocruz) e Christina Tavares (jornalista Fiocruz), foram até a casa Aguinaldo Silva (autor da novela Roque Santeiro, juntamente com Dias Gomes-1922/1999) que estava no ar na época e conseguiram que a 8ª fosse divulgada, colocando um dos personagens: o padre progressista Albano (Cláudio Cavalcanti-1940/2013), convocando os fieis para a conferência. A TV Globo colocou nos jornais de notícias. Envolveram os artistas como: Caetano Veloso, Djavan e outros, conseguiram até que a conferência fosse divulgada em contas de água e luz no RJ.
O sucesso foi inesperado. O Brasil inteiro se mobilizou e, foi muito lindo ver: ônibus e mais ônibus cheio de pessoas rumo a Brasília; caravanas de diversas categorias e partes do Brasil: das parteiras do Ceará, Amazonas ao Rio Grande do Sul (todos querendo participar) . O entusiasmo era tanto que os organizadores da 8ª nem souberam lidar com a multidão. Faltaram fichas de inscrição, as filas dos banheiros e dos orelhões (telefones públicos) eram gigantescas e todos queriam direito a voto, pois há muitos anos a sociedade brasileira estava carente de grandes eventos políticos. Enfim, no dia 21 de março de 1986, teve fim a grande conferência, onde seu Relatório Final constou, foi parar na Constituinte e criação do SUS.
Nós que fazemos o SUS e o Controle Social nos sentimos honrados em ter participado desse processo na construção do SUS, desde o início com o apoio do SINTSPREVS/PI. Não custa lembrar que na época não existia financiamento: todos e todas participaram por sua conta com dinheiro de rifas , bingos e outros e hospedando-se nos arredores de Brasília, só a gente sabe como era o desconforto.
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José Teófilo Cavalcante. Conselheiro de Saúde, Defensor e Ativista do SUS, Diretor do SINTSPREVS/PI.


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